• Gustavot Diaz

[PROCESSOS POÉTICOS 3ª ED] QUINTA AULA | CONSTRUINDO UM PROJETO DE TRABALHO

Ajuda-nos senhor a colher a importância das perguntas que nos desestabilizam, em vez de nos tornarmos, com idade adulta, profissionais da fuga. Cardeal TOLENTINO MENDONÇA

Até agora falamos do problema das identificações e como indexam o imaginário, e mesmo alienam o espectador. Em vias de iniciarmos o trabalho prático do Curso, é hora de encarar agora também a potência das identificações e sua capacidade de produzir afetos.


YOANN BOURGEOIS

Num episódio recente de nosso podcast DESVER, o artista e filósofo Marcos Beccari afirmou: “a arte pra mim é uma janela, não um espelho”. É através dessa janela que ele vê mundo; por meio dela é que faz mediações com ele, criando vínculos de alteridade. Beccari está bastante ciente das transformações na arte do último século, onde a antiga concepção de janela para o mundo se encontra datada devido à implosão do conceito de representação no campo visual. No mundo pós-moderno, a antiga “obra de arte” mudou seu sentido: passou a ser uma produção – resultado de ação propositiva do artista, ou apresentação subjetiva de um mundo filtrado pela contingência de um olhar particular. É precisamente por ter essa ciência que Beccari inscreve seu trabalho no campo da representação (falaremos mais sobre isso no próximo encontro). A questão que nos interessa hoje não é essa; hoje falaremos sobree afetos, sobre criar laços, sobre sentimentos.

A dimensão social da arte numa sociedade de vigilância, mensuração e controle – onde os sentimentos são substituídos pela utilidade, tempo é trocado por dinheiro e a dimensão estética substituída pela razão funcional dos objetos – no interior dessa sociedade o artista precisa levar em conta o sentir, ao mesmo tempo em que problematiza os sentidos.

A ninguém mais essa função parece ter restado. Quando a neurociência trata de emoções, parece reduzir tudo à princípios químicos, e a própria arte – tanto a produzida pela indústria cultural (com seus clichê e estereotipias sentimentalistas), quanto a do mainstream, parece ter sacrificado a emoção. A vinculação da arte ao sentimento certamente não é nova: Platão, no século 4 a.C., acreditava no poder desviante ou moralizante da arte; Friedrich Schiller (séc. XVIII), em suas Cartas para educação estética da humanidade, reivindicava autonomia à arte, cuja verdadeira potência criativa se dava na razão de uma pedagogia da “educação pela beleza”. Hoje muitos pensadores ainda tratam o tema com atenção, sob outras perspectivas – como Jacques Ranciere e Didi-Hubermann.

Quando o ver não é mais instrumentalizado em uma função objetiva e passa a ser um deleite em si mesmo, é sinal de que a visão foi acionada por uma experiência sensível. Em termos simples: se você teve uma emoção estética, ela derivou do contato com alguma forma. Mas, quantas de nossas emoções podem ser chamadas de estéticas? E quantas emoções permeiam nossa vida, cada vez mais estável em suas coordenadas simbólicas, ao mesmo tempo em que o real da complexidade do mundo revela cada vez fortemente suas contradições?

Ouvi uma história – não sei se verdadeira, mas de todo modo válida para o caso, de que quando o filho de Alice Ruiz e Paulo Leminski morreu de leucemia aos 10 anos de idade, o poeta não se sensibilizou com a morte. Parece que isso teria precipitado o término entre os dois. Em resposta, Alice teria composto a bela canção “Socorro”, a que, depois Leminski, em carta, responderia: “perdoa-me, mas sentir é muito lento”.


Sentir não é apenas lento, ele é efetivamente obstado. Fala-se em liberdade de expressão, ideias, conceitos (inclusive na arte), em conteúdos, elaborações formais teoréticas, ideias pra o mundo e para o milênio, “the big idea” para ganhar dinheiro. Mas o sentimento, contudo, tem uma força transformativa provavelmente maior do que qualquer ideia. Até porque ideias são postas em prática depois que sujeitos estão convencidos dela – e para se convencer sujeitos, o único instrumento é o afeto; a razão é indiferente. Seja como for, simplesmente não falamos sobre “sentir”. Os sentimentos numa sociedade vigiada não são verdadeiros, são performados. Na era do selfies, nossa própria imagem nos oblitera de nós mesmos e de nossas emoções. Afinal, é evidente que a experiência vivida sob o olho cego da câmera não é a mesma vivida no calor, no momento da ação. Deixamos de viver em nome do registro da vivência.

Talvez Slavoj Zizek respondesse: mas a vida já é assim. Em sua grande aula sobre A realidade do virtual, ele explica (já em 2003), como a então propagada “realidade virtual” já é uma condição da própria psique, a qual se organiza mediante coordenadas simbólicas (portanto editáveis) do mundo. Nossos mais mínimos atos já são inscritos simbolicamente no grande Outro. Mas o fato é que, hoje a imagem atravessa a maior parte dos processos sociais; seu alcance e poder de mediação nunca foram tão grandes. Ela media o consumo (compramos na web a imagem de produtos, pedimos a imagem de refeições nos aplicativos), as relações amorosas (nos apaixonamos pela imagem de pessoas nos apps de relacionamentos), além de todas as infindáveis funções e serviços operados por infinitos aplicativos, mediante dados regulados por algoritmos. Michel Foucault nunca suspeitaria até que ponto chegaria a sociedade de controle – a encarnação de seu panóptico. Mas o próprio Foucault oferece uma saída: “A ficção consiste não em fazer ver o invisível, mas em fazer ver até que ponto é invisível a invisibilidade do visível.” Eis a tarefa do artista: não lhe cabe expor o inédito, mas desvelar o que sempre esteve oculto pelo véu da obviedade.


HUGO JOHNSON, “Marionete”

E o que está invisibilizado – hoje na sociedade contemporânea, são os afetos. Faço uma proposta: em algum momento procurem desligar-se e simplesmente sentir. Desligar de tudo, celular, distrações, abrir um horário de solidão para sentir. Sentir e dar forma ao que você sente em relação a cada pessoa próxima. Isso, claro, não é meditação, nem conteúdo da produção artística, isso é subsídio, eventual lacuna de onde pode emergir algum insight. O presente é um desencontro permanente entre passado e futuro: não passamos um segundo sequer no presente. É preciso toda uma dinâmica de mindfulness e treino pra nos fazer sentir o presente. Que experiência de realidade é efetiva entre nós?

Também proponho a prática da poesia, de preferência a mais material possível: ela coloca o poeta na posição de ter que se deparar com a realidade mais imediata das coisas; forçando soluções de síntese por vezes reveladora. A poesia é um exercício da solidão; como  digo num poema – é o ofício de estar só. Está, sem dúvida nas coisas do mundo – naquela percepção sutil da vida, no desnudamento da pele das palavras, que passam então a se vestir de outras.

Sobre o fazer

De uma maneira geral, eu diria que há dois tipos de fazer: o projetivo e o retrospectivo. O primeiro caracteriza fortemente nosso método curso Processos Poéticos; o segundo consiste em “fazer primeiro”, e só depois, retrospectivamente ir buscando um sentido poético na produção.

Ambas as abordagens são válidas; aliás dependem inteiramente da sensibilidade de cada artista. Mas ambas contém riscos que podemos prevenir. O método projetivo periga tornar a obra insípida, ou mesmo ilustrativa; pode colocar o artista na condição de “ilustrar conceitos”. Já o  problema de se operar a prática expressiva como meio direto da expressão muitas vezes prejudica o diálogo, a interlocução com o público: a produção corre o risco de virar mera brincadeira de linguagem. Serve como vivência ao artista, mas não gera a experiência compartilhável que se espera da arte, não cria nenhum tipo de vínculo, de laço com o espectador, e assim não mobiliza afetos.

JOHN ROBINSON

Ainda quanto ao que chamamos “método retrospectivo” – ele parece se vincular a uma herança romântica tardia do Modernismo; certa aposta de que a matéria expressiva vai por si mesma, que os rumos do trabalho brotarão da própria experimentação. Mas isso só faria sentido mediante a existência de certa “alma ou essência” no artista, a qual se substanciaria em sua produção. É bom lembrar que “alma” vem do latim anima, que vem do indo-europeu ane = “assoprar, respirar”. Ou seja, mesmo o princípio mais imaterial vem de algo que, embora não visível, é bastante concreto: a respiração.

A dinâmica da vida contemporânea exige mais do que o famoso “momento de inspiração” romântico, no fundo bastante subjetivista. Tenho dúvidas ser essa sensibilidade a que melhor guia uma boa parte das boas produções contemporâneas. Estas são – ao menos parecem ser, resultado de laboratório (ela parte da cucina técnica com seus procedimentos que incluem, inclusive o acidente eventual). Elas representam a busca de uma enunciação às questões do mundo que estão aí: no mundo; não na “alma” do artista.

O artista deve estar onde o povo está?

Esta bela frase de Milton Nascimento deve ser relativizada. Em uma fala, Gonçalo M. Tavares, argumenta o seguinte quanto à posição do artista:


A questão de “onde o artista deve estar” é, sobretudo um problema prático, por ser no fundo um problema de tempo e espaço. As redes sociais tem uma lógica incoercível a que devemos estar atentos – o algoritmo é implacável. Ele agrega valor ao já valorizado; te dará mais daquilo que você já curte. Cada visualização, cada interação com um determinado tipo de post trará imediatamente para diante de seus olhos mais daquele determinado conteúdo. Como nosso tempo nas redes é normalmente estável, se interajo com conteúdo humorístico, por exemplo, nos demais dias a tendência é ver mais conteúdo de humor, uma vez que o tempo dispensado é o mesmo. Em resumo, conteúdos muitas vezes irrelevantes acabam tendo enorme (e desproporcional) veiculação, ocupando espaço em nosso feed pelo maior tempo possível.

Sabemos que nossa relação com o mundo é, no fundo, uma relação com imagens. Portanto, o que vemos – o que nos adentra os olhos, determina nossa experiência do mundo e é fundamental entender que redes sociais não são nossa porta de entrada para o mundo; pelo contrário, elas são a porta de entrada pela qual o mundo tem acesso a nós.

A questão prática da poética

A poética não trata de “justificar o trabalho”, como pode parecer. É precisamente o contrário: o trabalho é que justifica a poética. Ver de outra forma é um erro. Justificativas teóricas, por melhor que sejam, não podem ter autonomia em relação à produção estética, porque isso já tem nome: chama-se Filosofia. A poética deve ser decorrência do trabalho, não pode estar desconectada da produção porque emerge justamente da produção, ao passo que a orienta; a poética é uma linha guia para a produção.

ALESSANDRO MALOSSI

Nesta edição do curso pedi um texto que elencasse uma temática e a categoria que julgassem adequada; concomitante a isso fizemos um primeiro levantamento de referências, que considero parte imprescindível do projeto (dado que optaremos pelo método “retrospectivo”). Por que começar elencando referências? Porque não está em nós; os conteúdos da arte estão no mundo. O artista busca experiências a partir do outro, apropria-se, e traduz em linguagem visual; não é nele que irá encontrar os temas que lhe interessam, é no mundo. Arte não é sobre o artista, não trata dele – trata dos outros. Por isso escrevemos enciclopédias com centenas de artistas: porque eles falaram coisas que nos dizem respeito, não a eles mesmos. E por isso arte é diferente de redes sociais, onde a vida pessoal tem relevância enquanto tal. Lá é sobre o artista; na arte é sobre os outros. Do contrário: que importância tem um artista que tematiza a si mesmo em seu trabalho? Não o que os artistas pensam sobre o mundo o que efetivamente interessa? Eventualmente consubstancio minha experiência na experiência alheia;  não expresso a mim mesmo para mim, independente do outro – isso é mito de uma criação romântica.

Pitágoras (570 – 495 a.C), filósofo grego que inventou o termo “teoria”, foi também quem estendeu o uso da palavra cosmo – inicialmente designativa de objetos estéticos e artísticos (ainda que o conceito de arte não existisse propriamente como o conhecemos) – para o sinônimo de “Universo” (o termo “cosmético” ainda carrega esta antiquíssima associação entre cosmo e estética). A relação entre os termos advém do seguinte: com uma formação matemática e profundamente interessado pelos números, Pitágoras criou, ou enunciou a concepção da “Música das esferas”, que supunha uma harmonia matemática entre o micro e o macrocosmo baseada em relações e propriedade numéricas e musicais que ele contatara presentes no universo. Mas Pitágoras acreditava que da Terra não podíamos escutar a ‘música celeste’ porque o ruído oriundo do mundo impedia. Aqui eu ousaria complementar este pensamento, para afirmar que o ruído que vem da terra faz parte da harmonia universal. Até porque, sendo o universo infinito, sem dúvida daria conta de integrar a partitura caótica de nossas gritos e buzinas!

CARLOS AMORALES

Notas sobre a poética

Este Curso PROCESSOS POÉTICOS pode ser melhor encarado como uma provocação – mas uma provocação que cada participante faz a si mesmo, uma vez que sua inscrição os coloca à prova. O melhor papel que um orientador pode fazer é, na verdade, sair do caminho para dar passagem, ceder lugar; uma vez que a missão do mestre é se tornar discípulo. Diante de eventuais críticas, não se justifique: é perda de tempo, sua e do crítico. Quem fez a crítica não precisa mudar de ideia; a questão é mudar a obra, se a crítica for pertinente. Se cabe à obra, pegue; se não, solte-a e não perca mais tempo.

O “plano A” do curso é fazer um trabalho diferente daquilo que já fazem – no mínimo, adotar uma abordagem nova. Do contrário este curso foi reduzido a um debate técnico. O curso se chama processos poéticos – se não afetar os integrantes de modo a mobilizar e transformar, é porque então não foi efetivo, ou não não houve tensão suficiente pra alterar a relação de cada um com seus pressupostos de trabalho. Algo que dificulta nosso trabalho é a falta de estrutura de nosso campo – em diversos sentidos. O fazer artístico nunca se estrutura completamente enquanto sistema (como os sistemas filosóficos, por exemplo, ou da Física, que precisam ser demonstrados), justamente porque está em permanente transformação: esta é, na verdade, a essência mesma do “artístico”. Por isso as interpretações e análises de fenômenos artístico são sempre. Se não fosse assim, não teríamos a sucessão de escolas históricas – Renascença Barroro, Rococó, etc.

O fato das mudanças se operarem continuamente ao longo do tempo é o que qualifica a arte como essa experiência – ao mesmo tempo particular e universal onde os sujeitos onde os sujeitos buscam atualização de si mesmos. 

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Capa: EUDALD DE JUANA, modelagem em argila

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